Finanças sustentáveis e ESG: o novo idioma da contabilidade corporativa

Sustentabilidade agora é número e precisa caber no balanço.

Durante muito tempo, sustentabilidade foi vista como discurso.
Hoje, ela é parte da linguagem contábil moderna, integrada a relatórios, decisões e demonstrações financeiras.
O ESG (ambiental, social e de governança) deixou de ser promessa e passou a ser métrica.

Com o avanço dos padrões IFRS S1 e IFRS S2, as empresas são agora chamadas a demonstrar como riscos e oportunidades ambientais e sociais afetam o valor econômico.
E é nesse ponto que a contabilidade se torna o tradutor oficial da responsabilidade corporativa.

Mas, junto com a evolução, vieram também as distorções: práticas de greenwashing, greenhushing e greenwishing — três faces diferentes de um mesmo problema: a incoerência entre discurso e ação.


ESG e o papel da contabilidade na nova economia

As finanças sustentáveis criaram um novo campo para a profissão contábil:
mensurar, validar e assegurar dados que antes pertenciam ao terreno das relações públicas.

Os auditores e contadores passaram a atuar como garantes da credibilidade das informações ESG, avaliando controles, registros e políticas que sustentam as divulgações ambientais e sociais.

O que antes era reputação agora é dado contábil.
E dado contábil precisa ser rastreável.

Esse movimento é positivo, mas também trouxe riscos.
Em um mercado cada vez mais atento à integridade da informação, a má comunicação sobre sustentabilidade pode ser tão danosa quanto a ausência dela.


Os três riscos da era ESG

1. Greenwashing — quando o discurso supera a prática

O greenwashing ocorre quando uma empresa projeta uma imagem ambientalmente responsável sem base real nas suas operações.
Não é uma prática nova, mas se tornou mais sofisticada à medida que as exigências de relato ESG cresceram.

Exemplos recentes:

  • Volkswagen (Dieselgate): manipulou software para parecer menos poluente em testes de emissão.
  • H&M: criticada por promover linhas “verdes” enquanto mantinha práticas de produção intensiva.
  • DWS (braço do Deutsche Bank): multada por inflar alegações sobre investimentos ESG.

Esses casos revelam um ponto sensível: quando o marketing fala mais alto que os números, a confiança do mercado se perde e leva tempo para ser reconstruída.


2. Greenhushing — quando o medo cala resultados reais

No outro extremo, o greenhushing surge quando empresas preferem não divulgar suas ações ESG, por receio de críticas, comparações ou questionamentos públicos.
Elas fazem, mas não contam.

Esse comportamento cria outro tipo de risco: a falta de transparência.
Sem dados públicos, não há como avaliar impacto, evoluções ou práticas.
E o silêncio, em sustentabilidade, soa tão suspeito quanto o exagero.


3. Greenwishing — quando o ideal não encontra o método

O greenwishing representa o excesso de ambição sem lastro técnico.
Empresas anunciam metas de carbono zero ou impacto neutro em prazos irrealistas, sem base contábil, científica ou operacional que sustente o compromisso.

Não é má-fé, é entusiasmo mal medido.
Mas, quando as promessas se tornam impossíveis de cumprir, a consequência é a mesma: desconfiança e perda de credibilidade.

A boa meta ESG é aquela que cabe no balanço.
Sonhar é válido desde que venha acompanhado de evidência.


O papel da contabilidade na defesa da integridade ESG

Os riscos de discurso sustentável excessivo ou ausente só serão superados com métricas técnicas e asseguração independente.
Isso significa:

  1. Rastreabilidade — cada dado ESG precisa de evidência documental.
  2. Comparabilidade — relatórios devem seguir normas uniformes, como IFRS S1/S2.
  3. Coerência — metas e resultados devem conversar com as demonstrações financeiras.
  4. Transparência equilibrada — comunicar avanços e desafios, sem eufemismos nem omissões.

Esse é o papel mais moderno da contabilidade: proteger a veracidade do discurso sustentável.


Conclusão

Sustentabilidade não é mais um apêndice, é parte da estrutura de valor de qualquer empresa.
Mas, como todo valor, ela precisa ser comprovável e auditável.O verdadeiro risco hoje não está em errar, e sim em parecer certo sem estar preparado para provar.

Por isso, finanças sustentáveis não são apenas sobre meio ambiente, mas sobre integridade, coerência e rastreabilidade.

A contabilidade do futuro não será apenas financeira. Será também ética.

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